Participação, não absorção

A ortodoxia ensina uma distinção eterna entre o Criador e a criatura. A pessoa humana nunca se torna uma segunda essência divina, se dissolve em Deus ou deixa de ser humana. Theosis significa participar pela graça na vida, na luz, na santidade e no amor de Deus, permanecendo plenamente criatura e pessoa.

Uma imagem habitual é a do ferro colocado no fogo: torna-se luminoso e quente pela participação no fogo, sem se tornar fogo por natureza. Toda a imagem é limitada, mas esta preserva tanto a transformação real como a distinção real.

O centro bíblico

A segunda carta de Pedro fala de se tornar «participante da natureza divina». Cristo reza para que os seus discípulos sejam um, como o Pai e o Filho são um. Paulo descreve os crentes a serem transformados de glória em glória e a viverem já não a partir de um eu isolado, mas com Cristo a viver neles.

Estes textos não descrevem apenas uma imitação moral. Pela Encarnação, pela Cruz, pela Ressurreição, pela Ascensão e pelo dom do Espírito, a natureza humana é curada e levada à comunhão com Deus. Theosis designa a plenitude dessa salvação.

Cristo torna-se humano para que a humanidade participe na vida divina

O Filho assume tudo o que é verdadeiramente humano, exceto o pecado. O que é unido a Ele é curado. A sua ressurreição vence a morte e a sua ascensão leva a humanidade glorificada à comunhão com o Pai. A salvação não é, por isso, escapar à condição humana, mas realizar a vocação humana.

Os santos mostram personalidades humanas diversas que se tornam radiantes, não apagadas. A santidade não nivela as diferenças; liberta cada pessoa da deformação do pecado para que seja mais verdadeiramente ela própria em comunhão.

Como se vive a theosis

  • O batismo e a crismação unem a pessoa a Cristo e dão-lhe o Espírito Santo.
  • A Eucaristia alimenta a comunhão com Cristo no seu Corpo, a Igreja.
  • A oração, o jejum, a confissão e a misericórdia cooperam com a graça que cura.
  • A Escritura e o culto renovam a mente e ensinam o coração a amar.
  • O sofrimento oferecido com fé pode tornar-se um lugar de purificação e compaixão, nunca uma razão para ignorar a injustiça ou os cuidados necessários.

A theosis é um dom e um caminho para toda a vida

Nenhuma técnica força a união com Deus. A graça é ação divina incriada, dada livremente, e toda a resposta humana é possível graças a esse dom. No entanto, a graça não trata as pessoas como objetos passivos; o amor pede cooperação livre, arrependimento e perseverança.

A theosis começa agora, mas cumpre-se para além da morte, na ressurreição e no Reino. O crescimento pode ser real sem se tornar autossatisfação. Quanto mais uma pessoa se aproxima da luz divina, mais claramente vê a sua necessidade de misericórdia e a dignidade de cada próximo.

Fontes e leituras complementares